Entrevista com o Shape Designer Fernando Pastre

Tempo de leitura: 11 minutos

Conversamos com um jovem designer de destaque no mercado. Nessa entrevista ele conta sua história e passa algumas dicas sobre como começar.Uma prévia sobre o que vai rolar no evento ADTALKS – Automotive Design Talks 2018

Apresentação. Breve história. O que te levou a ser Designer?

Sou Fernando, 26 anos, bacharel em Design de Produto pela Unesp – Bauru e Master em ‘Transportation and Car Design’ pela Scuola Politecnica di Design (SPD) – Milao.Quando criança eu nunca gostei de carros(na verdade eu ficava decepcionado quando ganhava carrinhos de brinquedo, eu gostava era de dinossauro haha), mas desde sempre gostei de desenhar. Dos 4 aos 8 anos de idade fiz um curso de desenho de observação, e isso foi algo essencial para formar o que sou hoje, numa concepção geral ‘saber desenhar’ foi a característica que me acompanhou a vida inteira, sempre fui o carinha do ‘Ou, faz um desenho pra mim’. Os carros apareceram na minha vida durante a pré-adolescência, através de um primo meu que era fissurado e me fez assistir Velozes e Furiosos 1 e 2(no mesmo dia) e me incentivava a jogar Need for Speed(obrigado primo!).

Logo me vi gostando de carros, desenhando carros e assistindo Overhaulin’ e aí tive meu primeiro contato com um pouco do design, através do Chip Foose. Adorava os desenhos que ele fazia e queria fazer igual, comecei a procurar na internet e me inteirar mais sobre esse mundo. Assim, fui descobrindo materiais, técnicas e consequentemente o Design Automotivo. Foi aí que decidi fazer uma faculdade de Design.

Quais foram as dificuldades e barreiras de quando começou?

A primeira barreira foi fazer sketch. Eu tinha uma base mais sólida de desenho de observação e ilustração, mas sketch e suas técnicas são bastante diferentes, então tive que correr atrás de aprender. Dentro da faculdade não aprendemos a fazer sketch, a faculdade ensina muito mais a pensar design do que técnicas específicas, então durante os períodos que não tinha aula, me juntava com outros alunos que também gostavam de Car Design e passávamos horas desenhando e trocando experiências.

A segunda, foi um pouco estar fora do eixo ‘’São Paulo’’, muita coisa acontecia por lá, muitas pessoas se conectavam por lá, e essa barreira geográfica, querendo ou não, nos ‘’isolava’’ um pouco disso.  

webinario sketch na pratica

Academia versus mercado na prática. Qual a diferença?

Infelizmente, aqui no Brasil nós temos um distanciamento muito grande entre a Academia e a Indústria, e isso de certa maneira não dá muita noção ao estudante de como são as coisas na prática. E aí temos aquele grande conflito, pois o recém formado chega cru ao mercado de trabalho em busca de experiência, mas o mercado de trabalho requer experiência, então ficamos sempre meio perdidos.

A romantização, que vem ocorrendo principalmente dentro da academia, da nossa profissão, contribui para aquele, que entra no mercado de trabalho, não estar realmente preparado para lidar com problemas e situações que estão diretamente ligados à nossa profissão. Quando chegamos à indústria(seja ela qual for) vemos que design é algo muito mais complexo do que estávamos acostumados, e aplicá-lo então, nem se fala.

Você já teve projetos divulgados na mídia. Quais foram e como aconteceu?

Já sim. Tenhos projetos como Lamborghini Bandido, Ducati Zero, Audi MO-be, Ferrari LaRossa, Lamborghini Agressivo, Lamborghini Ápis e o N.01. Os três primeiros são projetos do Master e os outros são projetos pessoais. Totalizando, foram mais de 200 matérias na mídia, incluindo revistas físicas e sites do mundo inteiro. Algumas mídias de destaque foram: Drivers Magazine, CarScoops, Jornal do Carro – Estadão, revista MOTORRAD, revista Auto & Design, Audi Blog, Yanko Design e BBC Top Gear.  

link das matérias

Foi sempre muito despretensioso, a primeira vez foi com meus projetos do Master, postei eles no Behance e algumas semanas depois procurei no google e eles estavam lá, em diversos sites.

A segunda, e talvez uma das que teve mais impacto, foi com a Ferrari La Rossa. Foi bem estranho de início pois foi um exercício que fiz em 3 dias e de repente ganhou diversas matérias. Esse também foi o projeto onde senti um pouco o peso da responsabilidade, pois devido à proporção que ele ganhou e uma mídia sensacionalista, chamou a atenção da

Ferrari e eles me enviaram um e-mail e uma carta física, na qual condenavam o uso ‘indevido’ da marca, etc. Quando recebi essa advertência, fiquei meio abalado, pois eu apenas estava fazendo o que todo mundo fazia, em termos de projetos pessoais, era apenas um exercício. Mas depois comecei a encarar isso de uma maneira diferente, e hoje tenho a carta em um quadro no meu quarto(haha).

Os próximos projetos foram da mesma maneira, sempre eu fazia, postava na internet e a internet fazia a parte de disseminá-los. Isso tem a parte boa e ruim, boa pelo reconhecimento e ruim pois vira algo que foge ao meu controle, então já encarei muitas matérias com conteúdo não verdadeiro a meu respeito ou a respeito do projeto.

Outra repercussão bem bacana foi do N.01, um carro de corrida autônomo. Obteve destaque na TopGear e rendeu um comentário do Daniel Simon no meu Instagram.     

Você também é um empreendedor. Qual o trabalho da NOI Design?

Eu sempre tive a intenção de ter um estúdio de Design, focado em diversas áreas.

Então, quando retornei da Europa, decidi tirar do papel esse projeto. Através dele procuro colocar em prática toda a minha filosofia e experiência adquirida, em termos de qualidade e visão. Queremos trazer uma experiência única e deixar nossa impressão no mundo.

RIOLAX e NOI Design - Spa em acrílico
RIOLAX e NOI Design – Spa em acrílico

Quais skills são necessárias ter que a academia não ensina, e onde você as adquiriu?

Eu acho que a principal skill necessária para o design é simplesmente ‘pensar’! Não que a academia não ensina, mas é algo difícil de se fazer e depende muito mais de nós mesmos, e temos sempre preguiça disso.

É um treino que temos que fazer e cobrar de nós mesmos. Onde aprendi? O mundo exige isso, e se você não souber pensar, vai sempre ficar para trás. Isso era muito cobrado lá no Master, não existia ‘é assim porque eu gosto assim’, tudo tinha que ter um razão de estar ali e para isso tínhamos que pensar, e muito!

Que tipo de informação você recebe para criar os conceitos?( briefing, informações técnicas, perfil do usuário) Como você inicia o processo?

Basicamente um briefing compreendendo o que a empresa procura naquele projeto, algumas informações técnicas básicas e perfil do usuário(aqui entra o posicionamento do produto no mercado). Sempre inicio discutindo esses pontos com a empresa, para entender claramente as necessidades da mesma, avalio o que já existe no mercado, que pode ser um competidor daquele produto, e o que as outras empresas estão ’planejando’ para o futuro daquele nicho e os problemas naquela área.    

Conte-nos um pouco sobre o seu processo de criação. Onde você busca inspiração e referências?

Sempre busquei inspirações e referências fora da área que estou atuando, por exemplo, se estou fazendo um carro, busco inspirações na arquitetura, natureza(essa sempre tem uma solução para tudo), mobiliário, moda, etc. Olhar para o lado, faz com que você saia da caixa,  pense diferente, se questione e isso é ponto importante para a inovação, fugir ao ‘status quo’.

Durante o meu processo sempre me questiono sobre os elementos que estou fazendo,’por que isso tem que ser assim? Por que nao pode ser diferente?’ E aí, a partir dessas indagações vem a necessidade de buscar outros mundos com soluções novas.

Design nasce em achar soluções criativas para problemas, e se nos limitarmos a olhar apenas para uma área, vamos apenas dar continuidade ao problema.   

Você já fez algum curso de capacitação? E quais ferramentas você considera importante aprender ?

Fora a faculdade e o Master, apenas aquele quando tinha 4 anos.

Hoje, o mercado exige cada vez mais um profissional completo, que saiba desde sketch até modelagem 3D, um profissional que saiba fechar um ciclo do produto, desde de sua estratégia, concepção, até o contato final com o usuário. Como dito antes, um profissional que saiba pensar em todos os estágios.  

Como as novas tecnologias e modelos de negócio estão ou irão influenciar o perfil do designer. O usuário não precisará mais dirigir como que o designer irá pensar nessa nova experiência? (exemplo: kwid , tesla, google car, car2go)

Essa fase de transição que o mercado e indústria estão passando, exige ainda mais um profissional inovador, capaz de trazer novas soluções, desconectado com o que já existe e como sempre foi.

webinario sketch na pratica

Três são os itens que penso, são o principais que vieram para mudar a indústria, motores elétricos(que surgiram pela busca de eficiência e necessidade de reduzir a poluição), tecnologia autônoma e as cidades saturadas. A partir disso, veio o grande desafio de se repensar o carro e o seu papel. Reduzindo o tamanho das partes mecânicas(como o motor por exemplo) e o uso da tecnologia autônoma, a arquitetura do carro pode ser mudada quase que drasticamente, bem como sua função. O carro não será mais apenas algo que te leva do ponto A ao B, ele vai ser mais do que isso, se você não precisa dirigir, quais atividades você poderá fazer dentro do veículo? Ele vai ser uma extensão da sua casa, sendo quase que uma sala de estar ambulante? Ele vai ser um escritório, para você ir trabalhando enquanto ele te transporta?

Ele vai ser um motorista particular para levar seus filhos à escola, enquanto você vai ao trabalho? O carro não será mais somente seu? Pois se ele é autônomo depois que ele te deixa no trabalho, ele pode buscar outra pessoa e deixá-la em outro lugar?!

Muitas são as perguntas que giram ao redor desse assunto, e os novos designer tem a imcubencia de inflar a indústria de ideias novas e frescas.

Já pensou em desistir qual foi o momento mais difícil?

Nunca pensei em desistir do Design no geral, pois penso que design, mais que uma matéria, é uma metodologia, uma maneira de pensar, e dessa maneira podemos aplicá-la em qualquer área.

Mas já repensei sim a respeito de algumas escolhas feitas.

Você já foi mentor de alguém? Quais são os maiores desafios de quem está iniciando?

Estou sempre em contato com um pessoal que está atualmente cursando Design e querem entrar no mundo do Design Automotivo, assim sempre conversamos, dou feedbacks em alguns trabalhos e projetos, e trocamos novidades.

Penso que o maior desafio é justamente o distanciamento da academia e a indústria. Então quem está começando, tenta buscar saber como a indústria pensa, o que eles querem e como querem.

Outro grande desafio também é na parte técnica, pois não existem muitos meios para se aprender o que é preciso, em termos de ferramentas aplicadas(sketch, rendering, modelagem,etc).

O que você recomenda para quem ainda está começando ou fazendo faculdade?

Se mantenha sempre firme e corra atrás do que você quer. Só depende de você.

Procure outras pessoas para trocar experiências, não se isole ou pense que você já sabe tudo.

Não tenha vergonha de falar que nao sabe algo, tenha vergonha de não ir atrás e querer aprender.

Sempre questione as coisas, crie dúvidas na sua cabeça e vá atrás de solucioná-las.

Seja curioso!

Que conselho você daria a você mesmo no passado?

Tudo tem seu tempo para acontecer!Aproveite melhor algumas oportunidades e faça um curso de Alias antes de ir pra SPD (hahah).

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